
Vale a pena seguir carreira militar? O que aprendi sobre disciplina e resiliência
Entrei no Colégio Naval por concurso público e me tornei militar aos 16 anos. O Colégio Naval é uma das portas de entrada para o oficialato da Marinha do Brasil: os alunos cursam o ensino médio e podem seguir depois para a Escola Naval, onde fazem a graduação em Ciências Navais.
Minha intenção aqui não é dizer que a carreira militar serve para todo mundo. A formação tem dificuldades reais, e cada pessoa tem objetivos diferentes. Ainda assim, foi uma experiência valiosa para mim, sobretudo por ter acontecido tão cedo.
O curso funcionava em regime de internato. Foram anos em que eu só saía nos fins de semana. Entre os 16 e os 18 anos, isso já é um desafio por si só. Durante a pandemia de Covid-19, o internato continuou, mas sem a possibilidade de voltar para casa. Foi uma fase difícil, que exigiu bastante de mim e dos meus companheiros.
A rotina militar também coloca expectativas e frustrações à prova. Você espera que algo seja feito de um jeito e descobre que será de outro. Os cursos de formação são cansativos, repetitivos e cheios de imprevistos. Com o tempo, aprendi a lidar melhor com isso.
Alguns colegas seguiram caminhos fora da carreira militar. Hoje há médicos, analistas, cientistas da computação, advogados e pessoas aprovadas em outros concursos. O militarismo não os ensinou a trabalhar em cada uma dessas áreas. O que vejo em comum é a capacidade de manter disciplina e continuar trabalhando quando a tarefa perde a graça.
“Fazer o que precisa ser feito quando precisa ser feito” parece simples. Na prática, exige constância. Tente estudar três horas por dia durante três meses, sem recorrer ao celular nos intervalos, e a dificuldade aparece. A tarefa pode ser simples; executá-la sem uma recompensa imediata é outra história.
Durante o curso, tirei muitos serviços, alguns entre meia-noite e quatro da manhã. Em geral, eram horas em pé, fazendo rondas ou cumprindo tarefas básicas. Não era permitido dormir nem sentar. Na maior parte do tempo, ninguém estava olhando. Escolher cumprir aquela regra, guiado por um código de honra pessoal, foi uma das formas pelas quais desenvolvi disciplina e resiliência.
Essas qualidades também podem ser desenvolvidas fora do ambiente militar. A formação apenas me colocou em uma rotina que tornava essa cobrança inevitável. Para quem tiver a oportunidade de experimentar esse caminho, especialmente em uma porta de entrada como o Colégio Naval, pode ser uma vivência útil antes de decidir se quer seguir na carreira. Nem tudo vai agradar, e algumas pessoas podem decepcionar. Ainda assim, dá para aprender bastante com a experiência.